HISTÓRIA
A um dia belíssima Rua das Flores, de seu nome inicial Rua de Santa Catarina das Flores, foi a primeira rua verdadeiramente planeada da Cidade do Porto e como tal a primeira que se fez direita dentro de muralhas. Foi mandada abrir em 1521 pelo Rei D. Manuel 1, sendo Bispo D. Pedro da Costa e daí o seu antigo nome. A padroeira de D. Pedro da Costa, como já o tinha sido de seu tio, o Cardeal D. Jorge da Costa, era Santa Catarina e as flores viriam das que então se cultivavam naqueles terrenos.
Porque toda aquela zona, entre o rio da Vila (que veio a ser coberto pela actual Rua de Mousinho da Silveira) e as casas que em cima se encostavam à muralha, era ao tempo ocupada pelas chamadas Hortas do Bispo, fruídas pela Mitra e pelo Cabido.
As razões que terão levado El-Rei a mandar abrir aquela rua teriam sido:
- A primeira, ligar os conventos "de cima", Santo Eloi (Lóios) e S. Bento de Ave Maria (então acabado de instituir pelo Rei em 1518) com os "de baixo", São Domingos e São Francisco.
- A segunda seria pôr alguma ordem nas Hortas do Bispo e talvez também resolver alguns conflitos que a fruição desses terrenos entre o Bispo e os Cónegos tivesse provocado.
- Na mesma ordem de ideias, a terceira razão teria sido permitir que aí se construíssem edifícios que "acabassem com a deformidade de, no meio da cidade, jazerem aqueles chãos sem edifícios que não serviam senão para neles semear hortaliça", não rendendo o que poderiam render para os bens da Mitra.
- Porventura a razão principal, mas mais discreta, teria sido facultar chãos onde um dia se pudessem estabelecer as casas dos nobres que a mudança dos tempos e a nova política real vinham impondo se construíssem no Porto. Terminara a Idade Média, embora muito defendida caíra a lei que não permitia aos nobres pernoitarem na Cidade e o Rei precisaria aqui de outros apoios contra os poderes estabelecidos.
Começava finalmente a modificar-se a Cidade unicamente episcopal e burguesa que os privilégios medievais tinham consagrado. E assim, dos documentos coevos, pode inferir-se que Bispo e Cabido, logo a seguir ao rompimento da rua, começaram a emprazar os chãos que a ladeavam "para os empregadores fazerem casas, os quais fariam as paredes delas, na dianteira de pedra e cal até ao primeiro andar, com bons portões, as quais teriam a roda de Santa Catarina (ou a imagem de S. Miguel, se os foros fossem do Cabido) na padieira da porta, que seria de boa pedra, ou a teriam no arco principal, em sinal que eram foreiras ao dito Senhor Bispo e Mesa Episcopal".
A área hoje ocupada pela Casa da Companhia foi então emprazada em 2 partes, uma a Brás Brandão (escritura de 16 de Fevereiro de 1523), outra a Isabel Luis, viúva de Álvaro Rodrigues, mercador (escritura de 26 de Fevereiro de 1533). Ambas as escrituras foram outorgadas por Ruy de Couros, escudeiro, tabelião e escrivão do Senhor Bispo, e tudo com o condicionamento de que não poderiam os compradores "dividir, escambar, vender, trocar, nem alhear estes chãos e emprazamentos, nem parte deles, sem primeiro o fazerem saber ao dito Senhor Bispo e seus sucessores se o queriam tanto por tanto, e só assim os podiam vender ou trocar a pessoa que não fosse das defesas em direito e que sempre pagasse com seu foro e condições deste prazo, e cada vez que fossem vendidos ou trocados pagariam a vintena da parte do preço por que fossem vendidos".
Condições mais draconianas exigiam que "cessando eles ou os seus herdeiros de pagar por um ano, pagariam o foro redobrado por aquele ano, e cessando de pagar por dois anos, perderiam os ditos emprazamentos como o direito canónico queria, com todas as benfeitorias". Mais, "que na hora em que não mantivessem a Roda de Santa Catarina na padieira ou no arco principal, logo perdessem os emprazamentos para o Senhor Bispo e sua Mesa, com todas as benfeitorias".
Foi assim que estes chãos passaram para a posse de Brás Brandão e Isabel Luís. Do "Censual da Mitra do Porto" consta que os proprietários desses terrenos "da parte de cima da Rua de Santa Catarina das Flores" eram, em 1542, o dito Brás Brandão e Catarina Luis, que se presume filha de Isabel Luis, a primeira compradora.
Personagens essas que se podem identificar nas escrituras que posteriormente se fizeram, a primeira no Tabelião Simão Barbosa em 14 de Novembro de 1576, e a segunda no Tabelião Bernardo Fernandes em 7 de Novembro de 1579. Pela primeira, o fidalgo Francisco Neto de Figueiroa comprava dois chãos a Fernão Brandão e mulher Faustina de Almeida, filho e nora do dito Brás Brandão ao preço de cento e quarenta reis, e pela outra, o mesmo fidalgo comprava outro "chão e prazo, já com casa, a Froyllas de Saa e mulher Margarida Ferreira, que os houve de sua primeira mulher, Maria Ribeira, que lhe dotou Catarina Luis, confeiteira". Está assim definida a propriedade daqueles chãos até à data que passaram para as mãos da família fidalga que lhes havia de dar nome e senhoria.
Este Francisco Neto de Figueiroa era oriundo de uma velhíssima família da Galiza, com raízes nas primitivas lutas dos Godos nas Astúrias e alguma ligação com os próprios Duques de Cantábria. O nome Figueiroa tomara-o a família do paço galego que foi o seu a partir de Pedro Soares, filho de Soeiro Soares e capitão da hoste galega na célebre batalha de Clavijo. Foi um descendente deste Pedro Soares, Martim ou Martinho de Figueiroa de seu nome, que mais tarde deixou a Galiza e se veio estabelecer em Portugal.
Era Francisco Neto de Figueiroa filho de António Pires de Figueiroa e de Bárbara Vicente da Paixão, foi Cidadão do Porto e Procurador da Cidade, teve o hábito de Cristo, nasceu em 1535 e morreu em 1604. Na parte que nos interessa, foi o fundador da família que ocupou esta casa durante dois séculos e que a fez tal como hoje nos aparece.
Casou Francisco Neto de Figueiroa com Guiomar Pinta da Fonseca e teve 3 filhos legítimos e um bastardo, dos quais só um, o primeiro, continuou a família por dois dos outros terem tomado ordens e a última ter morrido solteira.
Foi esse filho João de Figueiroa Pinto, fidalgo da Casa Real, vereador da Câmara do Porto, homem muito erudito e muito notável na sua época. Não chegou a casar, mas teve de uma rapariga de Baltar, Catarina Pereira, um filho e uma filha. Esta foi religiosa e o filho foi o Dr. João de Figueiroa Pinto, assim chamado para se distinguir do pai e porque fez actos grandes na Faculdade de Leis da Universidade de Coimbra. Viveu na casa da Rua das Flores e foi Contador do Porto por herança de sua Mulher, D. Maria Carneiro de Barros, filha herdeira de Rafael Carneiro de Faria, Contador da Fazenda do Porto. Teve seis filhos dos quais um, o Doutor Francisco Carneiro de Figueiroa tomou ordens, doutorou-se em Direito Civil em Coimbra, tendo sido nomeado em 1722 Reitor da Universidade. Foi autor das "Memórias da Universidade de Coimbra", livro base de muito valor, e morreu em 1744.
O morgado, Rafael de Figueiroa Pinto serviu na Índia, para onde partiu em 1680, tendo regressado a Portugal em 1687. Foi familiar do Santo Ofício por carta de 15 de Junho de 1689 e casou em 1695 com D. Mariana Francisca de Sousa Machado, da quinta de Santa Lucrécia, no arcebispado de Braga. Tendo enviuvado, voltou a casar com D. Mariana Tereza de Carvalho, de Lamego.
Do seu primeiro casamento houve João de Figueiroa Pinto, que também serviu na Índia e de tal forma por lá se houve que os seus serviços foram recompensados pelo Rei D. João V com várias tenças, sendo feito cavaleiro e comendador da Ordem de Cristo, Alcaide-Mor de Portel e Senhor de Portocarreiro. Foi ele que adquiriu, pelos meados do século XVIII, o Prazo da Quinta da Boa Vista, que depois se chamou de Santo Ovídio, nos arredores da cidade do Porto (origem da Avenida da Boavista), belo prédio em que se viriam a radicar os Figueiroas. Talvez isto justifique a venda que posteriormente vieram a fazer da Casa da Rua das Flores.
Casou João de Figueiroa com D. Antónia Joaquina de Azevedo e Albuquerque de quem teve, entre outros filhos, Manoel de Figueiroa Pinto, como o pai Fidalgo da Casa Real, Alcaide-Mor de Portel, Senhor de Portocarreiro e Comendador de Santa Maria Madalena de Villas Boas, da Ordem de Cristo, que nasceu na casa da rua das Flores em 1721. Foi este, segundo os registos, o último que pagou foro pela Casa. De facto, tendo sido instituída em 1756 a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, a primeira sede que teve foi em casa que alugou na Rua Chã ao referido Manoel de Figueiroa Pinto, tendo depois passado, por aluguer também, para a Casa da Rua das Flores, do mesmo senhorio. Aí estabeleceu o seu escritório, ou, no dizer da época, a "sua casa de despacho, secretaria, contadoria e escriptório".
Foi este arrendamento prolongado até ao ano de 1805, ano em que efectivamente a Casa foi comprada, mas, companhia privilegiada que era, só em 1824 veio a pagar o foro, forçada pelos ventos da política nacional que já não eram os mesmos. Com o desenvolvimento que já então tinha, com a Casa comprou a Companhia todas as suas dependências, lojas, capela, casa-forte e quintal. A que não tardou a acrescentar, por compra, 4 pequenas casas contíguas na Rua do Ferraz, e ainda um armazém na Rua da Victória que lhe corre por cima. Depois, foi a expansão exterior, procurando pela Cidade os espaços que ali não tinha.
A esta instalação na Rua das Flores é natural que não fosse estranha a vontade de D. Bartholomeu Pancorbo, o verdadeiro fundador da Companhia, nem o seu acendrado amor por aquela Rua onde tinha aliás o seu palácio. É mesmo natural que a primitiva instalação na Rua Chã, em prédio do mesmo senhorio, mais não fosse do que passageiro arranjo até que a Casa da Rua das Flores pudesse ser ocupada. D. Barhtolomeu morreu no mesmo ano do primeiro aluguer, mas é natural que o Dr. Luiz Belleza de Andrade e Frei João de Mansilha, os seus continuadores, conhecessem e quisessem honrar a vontade do seu mentor. Se é que tudo não tivesse sido combinado de antemão por este.
A partir da instalação da sede da Companhia, como é natural, a Casa foi perdendo as tradições e até o nome da família que a tinha construído e enobrecido, passando a ser conhecida, somente como ainda hoje o é, por Casa da Companhia. Com esta passou a viver todas as grandezas e todas as vicissitudes que os tempos e as políticas lhe foram trazendo, mas isso já será uma muito outra História, que justificará sem dúvida outro estudo, mas que se articulará mal com esta.
Tanto mais que também a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro transferiu mais tarde para algures a sua sede, e, desde então, compreensivelmente, a Casa decaiu muito na sua História e nas suas instalações. Até que, por visão de quem hoje se encontra à frente da Companhia, foi cedida à Associação Nacional dos Jovens Empresários que, no pouco tempo que vai decorrido, já mostrou que saberá continuar a História velha de muitos séculos desta velha Casa, fazendo com que persista em servir aquilo que, acima de tudo, todos quantos nela moraram ou trabalharam, sempre quiseram servir: Portugal.
E será então a terceira História desta Casa, História em que, do coração, todos queremos acreditar.
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