ORDEM DE SÃO THIAGO A ORDEM MILITAR DE SANTIAGO DA ESPADA

COLAR OFICIAL

HISTORIA

Quasi todos os nossos antigos escriptores remontam a fundação d'esta ordem militar ao século IX, segundo a lenda da batalha de Clavijo, ganhada aos infieis por D. Ramiro I de Leão, na qual se diz que o apostolo S. Thiago entrára na peleja bem montado n'um cavallo branco acutilando e derrubando centenares de moiros, pelo que D. Rodrigo instituira esta ordem, e que os cavalleiros trouxessem por insignia uma espada, tendo d'uma parte do punho meia lua e uma estrella, e da outra a sol. Esta insignia foi depois simplificada, sendo reduzida a uma cruz rôxa em fórma de espada, com o punho em coração, e as extremidades das guardas em flor de liz, pendente d'um collar de tres cadeias de ouro. Os cavalleiros eram obrigados a trazer sempre esta insignia, não só sobre o manto branco da ordem, nos actos publicos, mas até nos fatos caseiros.

ESPANHA

A opinião hoje mais seguida, abstraindo a lenda do auxilio sobrenatural de S. Thiago, é que a ordem foi instituida em 1170, com o nome de S. Thiago da Espada durante o reinado de D. Affonso VIII de Castella, e do D. Fernando II de Leão, acceitando os cavalleiros que n'ella professavam, uma fórma de vida religiosa, fazendo votos de arriscarem a vida e o seu patrimonio na continuação da guerra contra os moiros. A instancia do 1º mestre da ordem, D. Pedro Fernandes, expediu o papa Alexandre III uma bulla de confirmação, a 5 de julho de 1175. O primitivo logar da ordem foi o convento de Santo Eloi, de cónegos regrantes de Santo Agostinho, na Galliza, onde deram obediencia os cavalleiros de S. Thiago, acceitando a sua regra e institutos. D. Fernando de Leão os favoreceu de modo, que em breve, se dilataram pelas outras provincias de Hespanha, onde se fundaram e dotaram muitas casas d'esta ordem.

PORTUGAL
COMENDA DE SANTIAGO

Em Portugal foi admittida esta nova milicia logo do seu principio, porque os cavalleiros, cumprindo a seu voto, sabendo que D. Affonso Henriques estava cercado em Santarem pelo rei moiro de Sevilha com um poderoso exercito, o fôram soccorrer, e se houveram com tanto valor e intrepidez que D. Affonso Henriques, por gratidão, os recebeu no seu reino, fazendo lhes doação de muitas villas e logares. Foi portanto instituida em Portugal a nova ordem militar de S. Thiago da Espada em 1177, ficando dependente do mestrado da Galliza. O seu primitivo assento foi em Lisboa no mosteiro de Santos-o Velho, onde permaneceram os cavalleiros até ao tempo de D. Affonso II, em que se mudaram para Alcacer do Sal, quando esta villa se conquistou aos moiros, os quaes tomaram posse do castello e sagraram a mesquita de que fizeram convento para a ordem, obra sumptuosa, de que já não restam vestigios. No reinado de D. Sancho II passaram para Mertola, que havia sido conquistada, tornando a o monarcha uma praça d'armas e fronteira da Andaluzia, ordenando que os cavalleiros a defendessem, a passassem para ella o seu convento. Esteve aqui a sède d'esta milicia religiosa desde 1239 até 1423, em que D. João I, sendo mestre da ordem o infante D. João, seu filho, mandou que o convento mestral e cabeça da ordem fôsse no castello de Palmella.

Os cavalleiros estiveram sujeitos aos mestres de Castella até ao reinado de D. Diniz, em que alcançaram uma bulla de isenção expedida pela papa Nicolau VI no anno de 1288, foi porém deferida a sua execução até 1291, em que estes cavalleiros elegeram por seu primeiro mestre a D. João Fernandes. 0s papas Celestino V e Bonifacio VIII uniram de novo a ordem de Portugal à de Castella, movidos pelas instancias do mestre castelhano; reclamando, porém, os portuguezes contra esta sujeição, obtiveram outros breves e favores dos mesmos pontifices, com que fôram continuando a eleição dos seus mestres, até que averiguados pelo papa João XXII os fundamentos que havia para se eximirem da obediencia de Castella, expediu a bulla de separação em 1320. As obras do convento de Palmella fôram muito demoradas, porque só se coucluiram em 1482, concorrendo muito para esta conclusão o principe D. João, depois rei D. João II, que foi o 14º mestre da ordem. N'este convento residia o prior mór da ordem, que era dignidade prelaticia, tendo mitra, sendo sempre providas n'este cargo pessoas muito classificadas. Em 1608 fez tambem importantes obras no convento o prior mór D. Jorge de Mello, nas quaes dispendeu á sua custa muitos mil cruzados. Na sua primitiva instituição deviam residir no convento 25 freires e 1 prior-mór. A rainha D. Catharina. mulher D. João III, acrescentou lhe mais 2. A ordem era donataria de 47 villas, 150 commendas rendosas, principalmente as de Setubal, Alcacer do Sal, Mertola, Ferreira, Ourique, S. Thiago do Cacem, e Algarve; 75 padroados de egrejas, mas as rendas especiaes do convento importavam n'uns 12:000 cruzados. No decorrer dos tempos modificou se muito a indole d'esta ordem, que de militar passou a ordem de merito litterario e scientifico. Essa reforma foi feita no reinado de D. Maria I, por carta de lei de 19 de junho de 1789, que a designou para recompensa do merito civil, deixando de ter a designação de S. Thiago da Espada, intitulando se Ordem de S. Thiago. Por alvará de 31 de outubro de 1862 foi novamente reformada esta ordem, por el rei D. Luiz, ficando com o titulo de:

ANTIGA, NOBILISSIMA E ESCLARECIDA ORDEM DE S THIAGO, DO MERITO SCIENTIFICO, LITTERERIO E ARTISTICO.


GRAUS, DIGNIDADES e INSÍGNAS

0 distinctivo da ordem ficou sendo uma cruz vermelha, em fórma de espada, tendo em volta a seguinte legenda: Sciencias, Letras e Artes, e pendente de fita rôxa. 0s graus e dignidades são:

HABITO

  1  GRÃO-MESTRE, que será sempre o soberano;


  1  COMMENDADOR MÓR, que será sempre o presumptivo herdeiro;


  8  GRAN CRUZES: 6 portugueses e 2 estrangeiros;


  30  COMMENDADORES: 25 portuguezes e 5 estrangeiros;


  50  OFFICIAIS: 40 nacionaes e 10 estrangeiros;


  70  CAVALLEIROS: 60 nacionaes e 10 estrangeiros.

Era de uso que a dignidade de gran cruz nunca fôsse conferida a pessoa que não tivesse já a de commendãdor, e esta a quem não estivesse condecorado com o grau de official. O mesmo se praticaria na promoção dos officiaes, os quaes seriam tirados sempre do numero dos cavalleiros. Se concorressem, porém, circumstancias especiaes que, por extraornarios e eminentes serviços tornassem alguma pessoa digna de lhe ser desde logo conferido o grau mais elevado da ordem, ou algum dos outros, o grão mestre concederia a dispensa, fazendo juntamente a mercê do grau de cavalleiro e official e da dignidade de commendador, ao gran cruz, e a dos dois graus de cavalleiro e de official ao commendador. A ordem de S. Thiago, depois da mercê feita, seria sempre conferida pelo grão mestre em sessão solemne do capitulo real. Os agraciados podiam usar desde logo das insignias do seu grau ou dignidade, requerendo a devida permissão. Com o advento da Republica, em outubro de 1910, foi abolida esta ordem assim como todas as demais ordens militares.




Aviso: esta ipsis-litteris ao original.
Diccionario Historico, Chorographico, Biographico, Bibliographico, Heraldico, Numismatico e Artistico
VOL. VI Q-S - Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues - 1912